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Livro das confissões, de Carla Dias
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Livro das confissões, de Carla Dias

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CARLA DIAS

 

Carla Dias nasceu em Santo André (SP), em 1970.  Sol em Escorpião. Ascendente Libra. Lua em Câncer. Poesia no diariamente. Com o Transformação foi classificada no V Concurso de Poesias de São Caetano do Sul (SP). Inquietou-se. Misturou a poesia com a prosa e publicou o Azul. À coletânea Encontros ofertou o conto Queda e participou do Poesias Brasileiras com o Arquétipo da Rebeldia Desenfreada. Há quase duas décadas, adotou o site Crônica do Dia, e lá continua na função de cronista.
Cultivou a paixão pelos tambores e se tornou baterista. Ao lado de Vera Figueiredo, vem produzindo o festival Batuka! Brasil.
Publicou os romances Os Estranhos, Jardim de Agnes e Estopim, e o livro de contos O Observador. Livro das Confissões é sua primeira obra exclusivamente de poesia.

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Conheça 4 poemas de Livro das confissões, de Carla Dias:





fetiches da displicência


a busca labiríntica de se achegar ao sonho
cerzindo versos noturnos
estrelas
falsificando o brilho
que a morte não tem
irisada areia
na qual os pés afundam
assim o instante é testado
é o fim do mundo
arcando os homens com a sensação falseada
de se reconhecerem deuses
a tecerem verdades na nascente das mentiras
homicidas
acostumados a sorrir após o crime cometido
espalham-se desilusões
por debaixo de suas máscaras
escutam vozes a contrabandearem
desculpas
irrefutáveis
mentiras



***



envilecido dia

 

amargaram o nosso dia
assim
como se costurassem os nossos lábios
no momento em que estávamos tomados pela coragem
de dizer toma um pouco
do que somos
amargaram nosso sonho
em meio a um inteiro acaso
nos despiram em público
e não nos deixaram mostrar
a nobreza da nudez
das nossas almas
amargaram nossa crença
ao cobrarem impunidade
pelos votos de solidão
sagrados votos
celibato versus o prazer em vida
desgosto da felicidade
amargaram nosso ser
com o fel
e ácidas palavras cortantes
um monólogo sobre a fragilidade do sentir
amargaram nosso gosto
de caminhar pela leveza
de termos sido o tudo dentro do nada
interferiram na imaginação
amargaram
sim
e que a eles se apresente
a dureza desse ato
porque a nós reservamos o direito
de comer do doce
de despertar
hoje
agora
este dia que amargaram
daqui a pouco
belo
amanhã
talvez o milagre se repita
então
esperamos
à espreita das emoções
partidas



***


murmúrio

 

num voo desses
eu o vi passando
arrastando beijos e confetes
e alguns amores
daqueles que se tornam desamores
quando nasce o dia
e lhe deixam sós
sem pensar duas vezes
que dirá uma
e você se dá com a madrugada
e a admira entre frestas
um desalinhado urbanismo emocional
vestido de quem sai pela rua
de alma em sangria
querendo cabelos que esvoacem
ao seu encontro
foi nesse voo que as asas penderam
para o tombo
apesar da vida lhe conceder a escolha
foi nesse tombo que alguns muros foram reerguidos
e neles você pichou a urgência pela fé
e em um tal voo
eu peguei a contramão
e você ficou
a observar abismos


***



história de um homem que não aguenta mais ser deus

 

eu que sou o álibi do tempo
e que refresco
dou alento
nem mesmo sei de fato
o que alimento
se as sandices dos bárbaros
se a arte dos exagerados
que adormecem
sobre o próprio sofrimento
eu que sou dono de tudo
não possuo identidade
não sei dizer meu próprio nome
nem traduzir meias verdades
tampouco as inteiras
não quero gastar fascínio
com ócio e julgamentos
quero é deitar na grama
ver o céu cerzir meus dramas
eu quero dia de vento
e chuva na cara
eu quero um gole de serenidade
e a idade que me cabe
nem mais
nem menos
quero a mortalidade
e a parceria dos venenos
e que não mais me peçam respostas
milagres
ou me culpem
para aliviar suas próprias consciências
eu que criei tudo
hoje nada sinto
pintei o quadro
do sucesso ao fracasso sou autor e proprietário
de uma alma-labirinto
eu abdico do cargo
de senhor
de poderoso
de fardo
de fato onipresente
de olhar desconhecido
porque tudo o que quero
é o entardecer
e eu nos braços de uma moça
que me acaricie a boca
que me ensine a ficar à toa
sem sentir solidão
ao presenciar o dia esmaecer
anônimo
renunciado por calendários
e pseudônimos

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